Resenha de Filme: Terapia de Risco (Side Effects)

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O diretor norte-americano Steven Soderbergh é o tipo de realizador que se não entrega um trabalho primoroso, digno de ser aclamado, pelo menos costuma conceber algo que valha uma conferida. É assim com seu mais recente filme em cartaz, que por aqui recebeu o título genérico de Terapia de Risco. Roteirizado por Scott Z. Burns, o mesmo de Contágio (2011) e O Desinformante (2009), a trama em ritmo de thriller psicológico, além de entreter com uma história curiosa, também procura abrir pertinente reflexão sobre o jogo abusivo imposto pela indústria dos medicamentos. Apesar de um conjunto de fatores interessantes, o apanhado tem um pecado crucial: esvaziar a temática que deveria ser a principal com a intenção de criar reviravoltas “espertinhas” para surpreender o público. Infelizmente, esse tipo de artificie, quando utilizado de forma simplista, descriteriosa, tende a irritar mais do que estupefazer. 

A trama de Terapia de Risco traz a jovem secretária Emily Taylor (Rooney Mara), uma mocinha com a melancolia estampada no rosto, no aguardo da iminente libertação de seu marido, o ex-empresário picareta Martin Taylor (Channing Tatum), do carcere no presídio local. O que era para ser um momento de felicidade se mostra o oposto: Emily parece não lidar bem com o retorno do esposo. Em um momento impulsivo quando está só, joga seu carro de forma violenta na parede de um estacionamento. Em seguida acorda desorientada em um hospital aos cuidados do psiquiatra residente Jonathan Banks (Jude Law). Dois dedos de prosa entre médico e paciente revelam o passado depressivo da moça. Principalmente abalizado pela prisão do marido e a perda da boa vida que levava na época em que Martin fazia caixa com golpes envolvendo grandes quantias de dinheiro. Atordoada, afirmando não poder ficar internada, o que era a intenção inicial do Doutor Jonathan, ela recebe alta com a promessa de visitar o médico em seu consultório. 

Logo na primeira consulta, Emily revela ser uma ex-usuária de anti-depressivos, ansiolíticos. Pratica até comum nos dias de hoje. O Doutor Jonathan receita a ela uma medicamento tarja-preta comum para espantar os maus pensamentos. Contudo, a medicação a deixa sonolenta, desprovida de apetite sexual. Nesse meio tempo, o médico passa a fazer contato com a antiga psiquiatra de Emily, a pouco confiável Doutora Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). Enquanto Emily procura lidar com sua condição, ela assiste  recorrentes comerciais na TV que anunciam um novo medicamento para depressão: o ablixa. Segundo os chamados, a droga promete uma vida nova, repleta de disposição e colocando os antigos sintomas para escanteio. Sem pensar duas vezes, na consulta seguinte, ela pede para que Jonathan a receite o novo remédio. Compadecido pelo tom entristecido da moça, o psiquiatra cede aos seus pedidos. Realmente, o ablixa dá uma guinada no cotidiano da moça, reacendendo seu desejo sexual e disposição para os afazeres diários. Mas também traz um indesejado efeito colateral: o sonambulismo.

 Até esse último momento citado no paragrafo anterior, Terapia de Risco segue uma linha narrativa muito coerente, condizente com a crítica ao sistema farmacéutico (e como eu gostaria que continuasse assim). A priori, questiona o trabalho que os laboratórios fazem ao seduzir médicos com vantagens a fim de que indiquem seu produtos e retrata o entorpecimento de boa parte da população através desses medicamentos cada vez mais prescritos a toa. Entretanto, como a própria trilha sonora inquietante denota, algo de mais sujo ainda há de surgir. O relacionamento estreito entre o médico e a paciente começa a ganhar novos contornos depois que Emily se envolve em uma situação trágica por conta do uso do ablixa. E tal fato vai comprometer boa parte da vida do Doutor Jonathan. Apesar de ter seu lado profissional e pessoal revirado, o psiquiatra vai impor uma investigação até que a verdade seja revelada. Aí é quando o filme desacelera o interesse, pois descamba para o já citado jogo de reviravoltas, até se apoiando em um moralismo tolo para justificar algumas atitudes improváveis do personagem de Jude Law.

 Se Terapia de Risco faz uso inábil de alguns “lugares comuns” da cartilha dos thrillers norte-americanos, chegando quase a comprometer o resultado final, o mesmo não pode ser dito da competente dupla principal. Tanto Jude Law quanto Rooney Mara procuram entregar atuações que vão a contramão dos estereótipos do gênero. Quando seus personagens revelam suas motivações frágeis, ambos procuram sempre compensar tais deslizes ao atrair a atenção para a nuance de suas atuações. É quando envolve os gestuais bem caracterizados, os olhares certeiros e as entonações de vozes pontuais. E se o roteiro por vezes capenga, também se pode perceber pontos positivos, como não banalizar a trama com romances eróticos farsescos. Aqui também vale dizer que a direção quase sempre fria, distanciada, de Steven Soderbergh cai bem. Principalmente até antes do inexpressivo ponto de virada, pois a evidente falta de apego pelos personagens deixa no ar o mistério sobre quem de fato será o vilão da história.

 

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Drama
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns
Produção: Gregory Jacobs, Lorenzo di Bonaventura, Scott Z. Burns
Fotografia: Peter Andrews
Trilha Sonora: Thomas Newman
Duração: 114 min.
Ano: 2013
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 17/05/2013 (Brasil)
Distribuidora: Diamond Films
Estúdio: Di Bonaventura Pictures / Endgame Entertainment
Classificação: 12 anos>

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Categoria: Celo Silva, Drama, Resenhas

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